Alandroal: O Caso dos Usos e Potencialidades da Esteva…

Alandroal: O Caso dos Usos e Potencialidades da Esteva…

 


Património, Paisagem e Identidade.

 

 

Este texto resulta de uma recolha etnobotânica realizada no concelho de Alandroal, Distrito de Évora,  a minha terra natal e de identidade. Decorreu entre 2002 e 2006.

 

A Esteva (Cistus ladanifer L.) é  da grande família Cistace, e abunda um pouco por toda a orla do mediterrâneo. São classificadas em vários géneros e existem mais de 150 espécies. Aqui, na nossa terra constituem um coberto vegetal que é um verdadeiro nicho ecológico de grande interesse para o ecossistema local e para a biodiversidade. Aparece fundamentalmente nos solos pouco calcários,ou mesmo nada calcários, chamados pelo povo “terras pobres  que só dão estevas.”.

 

É uma marca, um símbolo da nossa paisagem com uma carga poética e imagética que nos penetra nos sentidos com a sua beleza e perfume. Quem não sentiu na primavera o seu forte e inebriante cheiro, quem não sujou as mãos com o seu “verniz”, quem não ficou encantado com as suas flores mágicas e imponentes deve experimentar passear em plena época de renovação do ciclo da vida por entre estevais. Será certamente uma experiência inesquecível!

 

A esteva inspira muitas rimas na poesia, preenche páginas de literatura, serve como ícone de trabalhos artísticos e decora as bordaduras de muitos montes adquiridos recentemente, tendo até lugar de destaque no jardim ou como sebe delimitadora do terreno.

 

A esteva com as suas cinco pétalas brancas rodeadas de matiz púrpura em redor do seu olho amarelo começa a ser recorrente para os ilustradores sobre temática alentejana. Não sendo exclusiva do Alentejo é por aqui que atinge a máxima frequência e ocorrência. É planta perene mas de rápida propagação e crescimento sendo a sua altura variável, podendo em certas circunstâncias atingir mais de 3 metros de altura.

 

Tudo o que é belo dura pouco e as suas flores de enorme diâmetro amanhecem e não anoitecem, caindo com grande facilidade enriquecendo a manta morta dos matagais. Mas, em esforço sucessivo para manter a floração a nossa esteva ensaia diariamente o desabrochar de belas flores. Com a queda das flores fica o seu fruto não comestível de aspecto globoso e capsular que com o avançar da época estival explode dando origem no ciclo seguinte a novas plantas. Em muitas situações torna-se a espécie dominante formando extensos e densos matagais.

 

É nestes matagais que podemos encontrar a casa-mãe da cobra cornuda, a lapa do escorpião, o buraco do rato do campo, a toca do coelho e próximo desta a toca da raposa e o poiso do saca-rabos e da gineta e de tantos outros animais que aí encontram conforto, equilíbrio e alimento.

 

Para além do valor paisagístico e do valor estético o esteval forma um biótipo único que importa considerar e preservar.

 

É também nestes estevais que enchemos os olhos com as cabradas que se aventuram mato dentro a pastar e que enchem a charneca com os seus chamamentos e sinfonia de chocalhos.

 

A esteva é também uma planta de uso medicinal, principalmente os seus rebentos que têm propriedades calmantes e desinfectantes. Estes rebentos queimados em defumadores acalmam os nervos. Juntos com alecrim, rosmaninho, arruda ou alfazema serviam na nossa comunidade para afastar “o bicho”, a “doença” da casa.

 

A esteva juntamente com o rosmaninho,  colocada à porta de casa constituía uma atitude mágico-simbólica para afastar “as almas penadas” e “as coisas do mal”.

 

Na altura de pendurar os enchidos do porco à chaminé em muitos casos relatados o primeiro lume era aceso com esteva verde para limpar “os bichos” da chaminé.

 

Através da maceração da esteva obtêm-se a resina cujo princípio activo é o ládano que como é sabido é um  forte sedativo. A aplicação fazia-se através de emplastros sobre as zonas doridas ou em caso de “dores do diabo” embebia-se um pano no láudano e aspirava-se profundamente provocando uma acalmia dos sintomas de dores. As doenças nervosas também usavam a esteva como curativo.


 

Com o avanço das técnicas químicas e bioquímicas foi possível isolar e extrair por modernos métodos com dimensão industrial o ládano que serve para a perfumaria como fixador. Hoje este estrato tem um valor económico muito grande, sendo que no nosso país não é devidamente aproveitado. Os nossos vizinhos espanhóis têm indústrias de extracção deste fixador (ladanifer) de perfumes para satisfazerem as marcas mais conceituadas de perfumaria. A esteva é assim também um recurso económico a equacionar para investimento empresarial no concelho, desde que de forma equilibrada e sustentada.

 

BOIEIRO, Domingos, Ervas e Mezinhas (Corpo e Alma). Cadernos da Memória, CMAlandroal, Alandroal, 2008


Nota: Este texto não segue o  novo acordo ortográfico

Para Saber Mais:

L. S. Dias e Alexandra S. Dias, Esteva. Importância, Gestão e Ecologia, in Actas do 2º Congresso do Alentejo, 1987, p.p. 243 – 250. Estes autores pertencem ao Departamento de Biologia da Universidade de Évora e constituem referências fundamentais para todos aqueles que queiram encarar a possibilidade de desenvolvimento de negócio na exploração da esteva. Tem trabalhos posteriores sobre a Esteva.

 

Relacionado

Projecto Cistus Rumen: O uso da esteva na alimentação animal de ovinos e caprinos:

https://cistusrumen.pt/ 

Destilaria de óleo de Esteva:

http://epam.pt/evento/oficina-de-destilacao-de-oleo-essencial-de-esteva-corte-sines/

Propriedades medicinais:

https://lifestyle.sapo.pt/saude/saude-e-medicina/artigos/esteva

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